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mai

A bolsa e a vida

A Flavinha é uma grande amiga psicanalista e poeta nas horas vagas. Tive a honra de ganhar este conto escrito por ela, com o recadinho:
Para a Tati, porque a bolsa é a vida!
Bjs,
Flávia

Flavinha, só você mesma! Adorei!
Aqui o conto:

 

 

De assalto.

Não conseguia acertar os passos com o relógio. Estava sempre adiantada ou atrasada, nunca na hora . Naquela manhã corria em direção ao trabalho, atrasada. A passos largos deixou os transeuntes para trás. Quase na esquina da rua Felipe dos Santos com a avenida Olegário Maciel, percebeu dois sujeitos suspeitos no passeio ao lado, vindo em sua direção. Recuou. Um terceiro rapaz, mais próximo, cercou-a, tentou fechar sua passagem, apontou-lhe um facão e ordenou: “- Passe a bolsa ou eu te furo!”

A bolsa? Ele queria a bolsa. Vermelha era a bolsa Ibô, comprada numa loja de grife. Por um instante pensou: “- Por que não deixei a bolsa em casa? Mas como? Deixar a bolsa seria como deixar a vida”. Num gesto rápido, retirou-a dos ombros e colocou-a sobre seu ventre, um escudo protetor. Agora, com sua armadura, sentia-se forte, destemida. Podia olhar indignada nos olhos do agressor, rapaz abusado. “Que absurdo!” Berrou e bateu em retirada: “ saída pela direita”, como o leão do desenho animado de sua infância. Correu em direção ao super-mercado da esquina. Correu aos berros: “- Ladrão! Assassino! Assalto a mão armada! Socorro!” Em um segundo a rua deserta encheu-se de gente, pessoas surgiam de todos os lados para socorrê-la.

Os ladrões correram em direção à avenida numa fuga desesperada, perseguidos por um homem forte. Fugiram, sumiram no horizonte torto da cidade. Ela tinha as pernas trêmulas, o coração disparado e o abraço reconfortante de uma mulher, um tanto familiar, um tanto estranha, uma mulher que lhe valeu naquele momento difícil. A cena prosseguiu com água e açúcar, polícia, palavras de indignação e consolo.
Em casa, ao relembrar o assalto, via uma mulher louca correndo e gritando, uma mulher siderada, por mais um dos becos sem saída do planeta. A infância, a loucura e uma mulher tinham-lhe salvado. Abriu a bolsa vermelha. Seu escudo abrigava seus tesouros: o estojo de sombras, que a prima trouxe da França, “Sephora”, é tudo! Os batons: “Brick-o-la”, presente da filha; “Terracota”, garimpado numa liquidação; um brilho. O protetor solar indicado pela dermatologista, uma fábula. Os perfumes: “Néroli” e “Vert”, jasmim, cereja, laranja. Flores e frutos. Enfim, havia ainda na bolsa: um nome, um número, uma profissão, alguns poucos trocados para o caso dela precisar tomar um táxi. Pensou: “A bolsa ou a vida? A bolsa, porque vermelha é a vida”.

 

Flávia Drummond Naves

Abril de 2008.


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2 comentários para “A bolsa e a vida”

  1. fe disse:

    Mana, estamos muito chics! É muita coisa boa acontecendo ao mesmo tempo… Não conheço a Flávia mas manda um bjao para ela, e fala que adorei o carinho de nos enviar palavras tão bonitas !

    E que luxo o conteúdo dessa bolsa não? Ah se fosse a minha ia ser um vexame.

  2. Tati disse:

    hahaha. a minha também não é esse luxo todo não, mas guarda muita coisa sobre mim. eu que não quero perdê-la!! ” A bolsa é a vida”. Acho que pra nós mais ainda né?
    :)

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